"Fica tranquila, mãe, no estirão ele emagrece." Muitas famílias ouvem essa frase e passam anos esperando. Só que o estirão é uma fase de crescimento, não de emagrecimento. E a ciência mostra que, sozinha, a espera costuma não resolver.
Em 2025, o UNICEF mostrou que, pela primeira vez, existem no mundo mais crianças e adolescentes de 5 a 19 anos com obesidade do que com baixo peso. Não é um problema raro, nem um problema estético. É uma doença crônica, e entender isso muda a forma de cuidar.
O que a ciência diz sobre "esperar crescer"
Uma meta-análise publicada em 2016 na revista Obesity Reviews reuniu estudos com mais de 200 mil participantes. Ela mostrou que cerca de 55% das crianças com obesidade continuam com obesidade na adolescência, e que cerca de 80% dos adolescentes com obesidade continuam com obesidade na vida adulta.
Ou seja: quando a criança cresce, o peso costuma crescer junto. Algumas crianças normalizam o peso com o tempo, mas isso não é a regra, e não dá para saber de antemão quem vai seguir cada caminho.
Obesidade não é falta de força de vontade
Se fosse só "fechar a boca", ninguém passaria décadas tentando emagrecer. A obesidade envolve muitas peças ao mesmo tempo:
- Genética e histórico da família: filhos de pais com obesidade têm mais risco.
- Hormônios e apetite: o corpo regula fome e saciedade de formas diferentes em cada pessoa.
- Sono: dormir pouco ou mal altera os hormônios da fome.
- Emoção: tristeza, vergonha e estresse podem levar a comer por emoção.
- Rotina da casa e da escola: o ambiente pesa tanto quanto a escolha individual.
Por que "criança gordinha é saudável" é um mito
Por trás de uma criança "fofinha" podem existir alterações que não aparecem por fora: colesterol e triglicérides altos, resistência à insulina, gordura no fígado, pressão alta e apneia do sono. Muitas vezes, só os exames mostram.
E existe o lado que quase ninguém vê: apelidos na escola, vergonha de tirar a camisa, medo da educação física. Para muitas crianças, o sofrimento vai muito além do peso.
Sinais de que vale procurar avaliação
- O peso vem subindo mais rápido do que a altura, ano após ano.
- A criança cansa com facilidade, ronca ou dorme mal.
- Aparecem manchas escuras e aveludadas no pescoço ou nas axilas.
- Ela evita atividades físicas, fotos ou situações em que o corpo fica exposto.
- A família já tentou dietas e mudanças de rotina, sem conseguir sustentar.
Como é o cuidado
O tratamento da obesidade infantil não começa por dieta restritiva nem por remédio. Começa por uma avaliação cuidadosa: exames, sono, alimentação, rotina, emoção e histórico da família. A partir disso, a família recebe um plano possível para a vida real.
Alimentação, sono e movimento são a base. Em alguns casos, especialmente na adolescência, o tratamento pode incluir medicação, sempre com indicação, exames e acompanhamento médico. O cuidado costuma funcionar melhor em rede, com nutricionista, educador físico e psicólogo quando indicado. Cada criança é avaliada de forma individual, e os resultados variam de pessoa para pessoa.
Referências: Simmonds M. et al. Predicting adult obesity from childhood obesity: a systematic review and meta-analysis. Obesity Reviews, 2016. UNICEF. Child Nutrition Report, 2025.
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