As "canetas" para obesidade viraram assunto em toda roda de conversa. E muitas famílias chegam com a mesma dúvida: isso existe para criança? É seguro? Meu filho vai precisar? Aqui está o que a ciência já sabe, e o que ainda não sabe.
O que são os análogos de GLP-1
GLP-1 é um hormônio que o próprio intestino produz depois das refeições. Ele aumenta a saciedade, deixa o esvaziamento do estômago mais lento e ajuda a regular o açúcar no sangue. Os medicamentos chamados análogos de GLP-1 imitam esse hormônio. Os mais conhecidos para obesidade são a liraglutida e a semaglutida, aplicadas por injeção com uma caneta.
Eles não "queimam gordura" e não substituem alimentação, sono e movimento. Eles atuam no apetite e na saciedade, o que pode ajudar quem tem dificuldade de controlar a fome por causa da própria doença.
Para quem eles são aprovados
No Brasil, liraglutida e semaglutida têm aprovação da Anvisa para o tratamento da obesidade em adolescentes a partir de 12 anos, dentro de critérios definidos em bula e sempre junto com mudanças de rotina.
Abaixo dos 12 anos, ainda não há aprovação para obesidade. A tirzepatida, outro medicamento muito falado, foi aprovada em 2026 para adolescentes a partir de 10 anos, mas com diabetes tipo 2, e não para tratar obesidade isoladamente.
O que os estudos mostram
- STEP TEENS (New England Journal of Medicine, 2022): 201 adolescentes de 12 a 17 anos, acompanhados por 68 semanas. Com semaglutida, o IMC caiu em média 16,1%. No grupo placebo, subiu 0,6%. Todos os participantes também receberam orientação de alimentação e atividade física.
- SCALE Kids (New England Journal of Medicine, 2024): 82 crianças de 6 a 11 anos. Com liraglutida, o IMC caiu em média 5,8% em 56 semanas. No placebo, subiu 1,6%. É um estudo importante, mas ainda pequeno, e esse uso não está aprovado no Brasil para essa idade.
As médias escondem diferenças: algumas pessoas respondem bem, outras respondem pouco. Nenhum estudo garante o resultado de uma criança específica.
Efeitos colaterais e cuidados
Os efeitos mais comuns são gastrointestinais: náusea, vômito, diarreia, prisão de ventre e dor abdominal, geralmente mais intensos no início e no aumento de dose. Há também cuidados com a vesícula, com o pâncreas e com a quantidade de alimento e de proteína que a criança consegue manter, já que a fome diminui.
Outro ponto importante: os estudos mostram que, quando o remédio é suspenso, parte do peso tende a voltar. Por isso ele não é tratamento de curto prazo nem atalho. É uma ferramenta dentro de um acompanhamento contínuo.
Nunca por conta própria
Esses medicamentos exigem receita médica. Usar sem acompanhamento, comprar fora de farmácia ou repetir a dose de outra pessoa da família expõe a criança a riscos reais, além de não tratar o que está por trás do ganho de peso.
Então meu filho vai precisar de remédio?
Nem sempre. Alimentação, sono e movimento continuam sendo a base de qualquer tratamento. A medicação é considerada quando a base não é suficiente, levando em conta idade, exames, gravidade, outras doenças associadas e o momento da família. E a decisão é sempre tomada em conjunto.
O mais importante não é o remédio. É a criança ser avaliada por inteiro, no corpo e no que ela sente, sem culpa e com ciência.
Referências: Weghuber D. et al. Once-weekly semaglutide in adolescents with obesity (STEP TEENS). N Engl J Med, 2022. Fox C. K. et al. Liraglutide for children 6 to <12 years of age with obesity (SCALE Kids). N Engl J Med, 2025 (publicação online em 2024). As indicações seguem a bula vigente aprovada pela Anvisa.
Ficou com dúvida se isso faz sentido para o seu filho?
Essa decisão depende de uma avaliação individual. Na consulta, a gente conversa sobre todas as opções, com calma.
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