As "canetas" para obesidade viraram assunto em toda roda de conversa. E muitas famílias chegam com a mesma dúvida: isso existe para criança? É seguro? Meu filho vai precisar? Aqui está o que a ciência já sabe, e o que ainda não sabe.

O que são os análogos de GLP-1

GLP-1 é um hormônio que o próprio intestino produz depois das refeições. Ele aumenta a saciedade, deixa o esvaziamento do estômago mais lento e ajuda a regular o açúcar no sangue. Os medicamentos chamados análogos de GLP-1 imitam esse hormônio. Os mais conhecidos para obesidade são a liraglutida e a semaglutida, aplicadas por injeção com uma caneta.

Eles não "queimam gordura" e não substituem alimentação, sono e movimento. Eles atuam no apetite e na saciedade, o que pode ajudar quem tem dificuldade de controlar a fome por causa da própria doença.

Para quem eles são aprovados

No Brasil, liraglutida e semaglutida têm aprovação da Anvisa para o tratamento da obesidade em adolescentes a partir de 12 anos, dentro de critérios definidos em bula e sempre junto com mudanças de rotina.

Abaixo dos 12 anos, ainda não há aprovação para obesidade. A tirzepatida, outro medicamento muito falado, foi aprovada em 2026 para adolescentes a partir de 10 anos, mas com diabetes tipo 2, e não para tratar obesidade isoladamente.

Aprovado não quer dizer indicado para todos. Quer dizer que existe estudo suficiente para que o médico avalie, caso a caso, se faz sentido.

O que os estudos mostram

As médias escondem diferenças: algumas pessoas respondem bem, outras respondem pouco. Nenhum estudo garante o resultado de uma criança específica.

Efeitos colaterais e cuidados

Os efeitos mais comuns são gastrointestinais: náusea, vômito, diarreia, prisão de ventre e dor abdominal, geralmente mais intensos no início e no aumento de dose. Há também cuidados com a vesícula, com o pâncreas e com a quantidade de alimento e de proteína que a criança consegue manter, já que a fome diminui.

Outro ponto importante: os estudos mostram que, quando o remédio é suspenso, parte do peso tende a voltar. Por isso ele não é tratamento de curto prazo nem atalho. É uma ferramenta dentro de um acompanhamento contínuo.

Nunca por conta própria

Esses medicamentos exigem receita médica. Usar sem acompanhamento, comprar fora de farmácia ou repetir a dose de outra pessoa da família expõe a criança a riscos reais, além de não tratar o que está por trás do ganho de peso.

Então meu filho vai precisar de remédio?

Nem sempre. Alimentação, sono e movimento continuam sendo a base de qualquer tratamento. A medicação é considerada quando a base não é suficiente, levando em conta idade, exames, gravidade, outras doenças associadas e o momento da família. E a decisão é sempre tomada em conjunto.

O mais importante não é o remédio. É a criança ser avaliada por inteiro, no corpo e no que ela sente, sem culpa e com ciência.

Referências: Weghuber D. et al. Once-weekly semaglutide in adolescents with obesity (STEP TEENS). N Engl J Med, 2022. Fox C. K. et al. Liraglutide for children 6 to <12 years of age with obesity (SCALE Kids). N Engl J Med, 2025 (publicação online em 2024). As indicações seguem a bula vigente aprovada pela Anvisa.

Ficou com dúvida se isso faz sentido para o seu filho?

Essa decisão depende de uma avaliação individual. Na consulta, a gente conversa sobre todas as opções, com calma.

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Dra. Marina Guarnieri Médica · CRM-SP 252467 · obesidade infantil, com olhar para o corpo e para a emoção
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